O que o tempo das locomotivas ensina sobre a cultura dos acordos
- Silas Amaral

- 16 de dez. de 2019
- 4 min de leitura
Atualizado: 17 de dez. de 2019
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O TEMPO DOS CAVALOS x O TEMPO DAS LOCOMOTIVAS
Um dos momentos de maior expectativa e aprendizagem da história recente da humanidade foi o período da revolução industrial – especialmente em sua primeira fase, quando as maiores #mudanças ocorreram. Os ingleses (e os demais países, a reboque) iniciaram a construção de um novo estilo de vida para todos.
No campo dos #comportamentos, aquele período histórico inaugurou a substituição do trabalho manufaturado pelo fabril, estruturou mercados de consumo em massa e escalou o comércio internacional a um nível jamais imaginado.
Já na seara da #tecnologia, introduziu-se a mecanização dos processos, o que permitiu invenções como a máquina de fiar, os teares mecânicos, as máquinas a vapor e, finalmente, aquele que talvez tenha sido um dos inventos mais polêmicos de todos os tempos: a locomotiva.
De acordo com os registros históricos, a locomotiva surgiu em 1804, por invenção do inglês Richard Trevithick, mas popularizou-se a partir de 1822, quando a companhia inglesa Robert Stephenson & Co. passou a produzi-la em escala. Aliás, por falar em popularidade, o povo chamava de “cavalo mecânico” aquele monstro de ferro que deslizava em trilhos, carregando toneladas de uma só vez.
A referência não podia ser outra. Como você acha que os deslocamentos físicos eram feitos? Tudo que exigia mais força do que um ser humano pudesse trazer nos ombros era carregado a cavalo. Mas a locomotiva (ao contrário dos cavalos) não reclamava do peso, não parava para dormir nem para se alimentar; e viajava a vapor de dia e de noite, com a mesma performance, sob chuva e sob sol. Uma concorrência realmente imbatível para os padrões da época.
A lição industrial é valiosíssima para todos nós.
A combinação entre novas tecnologias e mudança de comportamento produzem novos estilos de vida. Tudo muda muito rápido e em escala global.
Imagine por um instante quantas gerações administraram suas propriedades, seus negócios por toda vida, sem antever que os costumes e a conjuntura tecnológica iriam mudar de uma hora para outra... Quantas gerações viveram e morreram sem jamais imaginar que o tempo dos cavalos seria substituído pelo tempo das locomotivas.
A CULTURA DOS LITÍGIOS x A CULTURA DOS ACORDOS
Duzentos anos depois, em 2019, vivemos uma experiência parecida. Uma irrupção de novas tecnologias e de comportamentos varre os países, em uma transformação contínua. Quanto à adaptação da geração que vive estas novidades, é possível ver tanto setores eufóricos pelo que o futuro trará, como resistentes às mudanças.
Tradicionalmente, entre os setores mais conservadores (e, portanto, resistentes) estão o direito e o mercado dos serviços jurídicos. Não que a adaptação seja fácil. Enfrenta-se uma modificação estrutural, ou seja, as ideias, as ferramentas e os conhecimentos que identificaram os bons advogados por séculos estão sendo substituídos por outros.
Assim como a revolução industrial iniciou a construção de um novo estilo de vida no início do século XIX, agora, no início do século XXI, a forma como as pessoas e as empresas se comunicam, se relacionam e resolvem problemas está se transformando rapidamente.
Perceba, a advocacia moderna construiu-se e funcionou durante séculos do mesmo jeito, posicionando os advogados como #intermediários da #culturadoslitígios.
Para quem não fala juridiquês, isso significa que os advogados são formados predominantemente para brigar (brigar não, vencer!) em uma espécie de arena pública (isto é, no âmbito do Poder Judiciário). Aliás, até hoje, seguindo a tradição, os estudantes de direito passam, pelo menos, cinco anos aprendendo as regras do jogo – jogo no qual há um vencedor e um vencido. Essa é a história da profissão, orgulhosamente ostentada desde o tempo dos cavalos.
Mas paralelamente à formação linear da advocacia, surgiriam a internet e a automação digital a partir dos anos 1990, transformando para sempre as relações humanas, a noção de tempo e a gestão das informações. Algo tão intenso e disruptivo, que chega a ser chamado por economistas de Quarta Revolução Industrial.
Efeitos colaterais desse novo tempo são a gigantesca produção de dados e a maravilhosa expansão do conhecimento.
Somente no Google, por exemplo, há um volume de 3,8 milhões de buscas por minuto; 5,6 bilhões por dia; e 2 trilhões por ano. Há informação sobre praticamente tudo. Pela primeira vez na história, a informação está disponível instantaneamente, sem filtros e ao alcance de todos, em qualquer parte do mundo. Novos valores passam a ser propostos para as relações humanas (entram em cena, por exemplo, a #simplicidade, a #velocidade, a #cooperação e a busca pela #felicidade).
Os advogados não escapam do fenômeno: primeiro, porque estão no mundo; e segundo, porque a cultura das pessoas e empresas (seus clientes) se transforma por completo. Apesar da resistência do setor, uma tendência inflexível cresce, ano a ano, rejeitando resolver problemas por meio das velhas brigas (desgastantes, lentas e custosas). Na ordem do dia entra a #culturadosacordos.
Na era da informação, os acordos elevam a reputação de pessoas e empresas, conforme a reponsabilidade e o bem-estar (que se espera de todos). Prevenir problemas é melhor do que compensar prejuízos.
Os exemplos são inúmeros: (1) internautas que tiveram problemas, ao adquirir um produto ou contratar um serviço, querem resolver sozinhos a pendência (do mesmo jeito como compraram, sem ter que interagir com atendentes humanos). Eles optam por #negociação; (2) famílias preferem reuniões privadas (presenciais ou online), a portas fechadas, para resolver conflitos íntimos, com o auxílio de #mediadores; (3) empresas em disputas milionárias pesam os interesses em jogo e simplesmente abandonam os litígios judiciais, optando por meios alternativos de solução de conflitos como a #arbitragem.
O acordos atentam para a #escassez de tempo e a necessidade de #urgência, verdadeiras obviedades pós-internet.
Independentemente da seara do direito, o advogado que recomendar a um cliente que “tenha paciência” ou que aguarde por "dois ou três anos até o desfecho de um processo" será surpreendido por um desconcertante desinteresse. Se o cliente for um Millennial (a geração que nasceu depois do ano 2000), aí há risco de a frase sequer ser terminada pelo causídico.
A verdade é que hoje em dia ninguém mais pode "esperar por anos", ninguém mais “vence” nada depois de tanto tempo. Ao contrário, a perspectiva dos clientes é de perda: tempo de vida, dinheiro e energia, que não se recuperam (nem mesmo por indenização).
No mundo de hoje interessam resultados rápidos, soluções concretas, objetividade e economia. Para quase todos os conflitos modernos, dois acordantes valem mais do que um vencedor e um vencido. A advocacia que permanecer contrária às mudanças (e desatualizada, como mera intermediária de litígios judiciais) terá grande dificuldade de ser absorvida pelos clientes da era da cultura dos acordos.
O tempo das locomotivas ensina. Há muitas oportunidades reservadas para os que aceitarem o desafio de embarcar no novo tempo.
Mas, atenção, é preciso deixar a montaria e as ferraduras para trás.




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